OCDE: 9% dos professores da educação básica pública no Brasil não têm qualificação completa
Percentual brasileiro está perto da média da organização, de 9,1%, mas insatisfação com salário e condições de trabalho é bem maior que a dos demais países.

No Brasil, 9% dos professores da educação básica pública atuam sem qualificação completa, segundo o Panorama da Educação 2026, relatório anual da OCDE. O número está praticamente colado na média da organização, de 9,1%.
O dado, à primeira vista, coloca o país em situação parecida com a dos demais membros da OCDE. Mas o relatório mostra que o problema brasileiro não está na foto inicial, e sim no que acontece depois que o professor entra em sala.
O problema é segurar quem já está formado
Em 2022, a taxa de saída de professores plenamente qualificados no Brasil chegou a 10,3%. Ou seja, cerca de 1 em cada 10 docentes qualificados deixou a rede naquele ano.
A insatisfação ajuda a explicar o movimento. Entre os professores dos anos finais do ensino fundamental, só 44,3% se diziam satisfeitos com as condições de trabalho em 2022, contra 68,4% na média da OCDE. A diferença passa de 24 pontos percentuais.
Isso desloca o foco da conversa. O Brasil não sofre apenas com formação inicial, mas com retenção: forma o professor, mas não consegue mantê-lo motivado na escola.
Mais professores, menos alunos
O relatório também registra que o país ampliou o número de docentes mesmo com queda de matrículas. Entre 2015 e 2024, nos anos iniciais do ensino fundamental, os professores aumentaram 4%, enquanto as matrículas caíram 7%.
A OCDE projeta ainda uma redução de 3% na população de 5 a 14 anos no Brasil entre 2024 e 2033, o que tende a diminuir a demanda por docentes nos próximos anos.
A escassez, porém, não é uniforme. Ela se concentra em áreas remotas ou vulneráveis e em disciplinas específicas:
- matemática
- ciências naturais
- escolas de regiões com maior vulnerabilidade social
O Panorama da Educação é publicado pela OCDE desde 1997, com participação brasileira. No Brasil, o cálculo dos indicadores nacionais fica a cargo do Inep.
Salário e políticas de atração
O Ministério da Educação informou que o Piso Nacional do Magistério está atualmente em R$ 5.130,63. O valor é a referência mínima de remuneração para a carreira em todo o país.
Para atrair jovens à docência, o governo aposta no Pé-de-Meia Licenciaturas. Segundo o ministro Leonardo Barchini, as matrículas de estudantes de alto desempenho no Enem em cursos de licenciatura cresceram 106% entre 2024 e 2026.
O desafio de renovar e qualificar o quadro docente aparece também em outros indicadores recentes. A Prova Nacional Docente teve queda expressiva de inscritos neste ano, sinal de que a atração para a carreira ainda enfrenta obstáculos.
Os números da OCDE reforçam um recado que o setor já conhece: sem melhora nas condições de trabalho e na valorização, ampliar a formação inicial resolve só metade da equação. A outra metade é convencer o professor qualificado a permanecer na sala de aula.


